Eu comecei esta investigação querendo apoiar o BIP-110.
Não comecei neutro. Já desconfiava do Bitcoin Core, o programa mais usado para conferir as regras do Bitcoin. Já via uma panelinha cada vez mais fechada controlando formação, financiamento, reputação e acesso às posições que transformam propostas em software distribuído para milhões de usuários.
Também estava de saco cheio da resposta usada contra quem questionava essa turma: “você não entende porque não estudou o suficiente”.
Escrever software monetário exige conhecimento técnico. Esse conhecimento não entrega ao programador uma procuração sobre o meu patrimônio. O Bitcoin nasceu para reduzir nossa dependência de castas especializadas, não para trocar banqueiros centrais por desenvolvedores que esperam obediência.
Depois de atravessar discussões técnicas, propostas de mudança, fontes de financiamento e o BIP-110, minha conclusão ficou mais desconfortável.
O Bitcoin Core foi cooptado. A versão 30 foi uma decisão nociva. O diagnóstico de Luke Dashjr e Bitcoin Mechanic acerta no nervo. Mesmo assim, a solução que eles propõem pode ser pior que a doença.
O problema dentro do Core é real
Em outubro de 2025, a versão 30 do Bitcoin Core deixou mais permissivo o OP_RETURN, um compartimento da transação usado para gravar uma mensagem que nunca poderá ser confundida com dinheiro gastável.
O padrão anterior aceitava aproximadamente 80 caracteres simples. O novo colocou o teto em 100 mil bytes e permitiu vários desses compartimentos numa única transação. Outro limite costuma ser atingido antes, mas a direção política da mudança importa: o programa dominante decidiu encaminhar com mais facilidade transações carregadas de dados não monetários.
Os defensores responderam que arquivos já entravam por outros caminhos. Isso é verdade. As chamadas inscriptions, gravações de imagens, textos e arquivos dentro de transações, já exploravam funções criadas para condições de pagamento mais sofisticadas.
Mas o fato de o incêndio já entrar pela janela não torna inteligente abrir a porta da frente.
A mudança também não surgiu do nada. Em 2023, Luke tentou ampliar filtros para alcançar essas formas de armazenamento. Sua proposta foi rejeitada. O comportamento virou uma vulnerabilidade contestada. Dois anos depois, integrantes do mesmo ambiente defenderam publicamente a retirada de limites e a mudança chegou ao programa distribuído aos usuários.
Quando segui o dinheiro, encontrei outro problema.
Alex Morcos e Suhas Daftuar construíram patrimônio como cofundadores da Hudson River Trading, uma das grandes empresas de negociação automatizada de Wall Street. Depois fundaram a Chaincode Labs, organização financiada privadamente que pagou, treinou e reuniu alguns dos desenvolvedores mais influentes do Core.
Não encontrei prova de que a Hudson River Trading ordenou a mudança da versão 30. Seria irresponsável inventar essa ordem. Encontrei algo estruturalmente grave: dinheiro criado em Wall Street sustentando uma instituição capaz de decidir quais profissionais trabalham em tempo integral, quais ideias recebem atenção e quem acumula reputação dentro do programa monetário dominante.
O financiador não precisa telefonar ordenando uma linha de código. Basta construir o ambiente no qual determinadas pessoas e visões conseguem florescer enquanto as outras sobrevivem como trabalho voluntário.
Também não vou esconder minha opinião atrás de linguagem educadinha. Tenho profundo desdém pela ideologia woke impregnada nessa panelinha. Ela troca mérito por identidade, argumento por selo moral e discordância por pecado. Num projeto criado para ser radicalmente indiferente a raça, sexo, status e aprovação social, isso funciona como um câncer institucional.
Luke está certo sobre a doença.
O remédio coloca seu patrimônio na mesa
BIP significa Bitcoin Improvement Proposal, ou proposta de melhoria do Bitcoin. O número 110 identifica uma mudança temporária que tenta restringir as formas mais usadas para gravar dados arbitrários.
Hoje, seu computador pode recusar uma transação da própria sala de espera e depois aceitar um bloco válido que a contenha. O BIP-110 muda esse nível de confronto. Se um minerador incluir determinadas construções proibidas, os computadores que ativaram a proposta rejeitam o bloco inteiro.
Imagine uma loja com a placa “não atendemos clientes sem camisa”. Isso é uma preferência local. O BIP-110 tenta transformar a placa em lei nacional: se qualquer fornecedor atender o cliente sem camisa, toda a mercadoria produzida depois será tratada como inexistente.
Se quase todos seguirem a regra, a mudança pode acontecer sem uma divisão duradoura. Se uma parte relevante continuar nas regras antigas, surgem duas blockchains incompatíveis e duas moedas disputando o nome Bitcoin.
É nesse momento que a discussão deixa de ser uma briga de programador e chega à sua família.
As mesmas chaves normalmente dão acesso às moedas dos dois lados. Depois, corretoras, carteiras, empresas, mineradores e proprietários precisam decidir qual blockchain aceitar. Quem escolher a versão minoritária pode defender a causa moralmente correta e assistir ao patrimônio perder liquidez e preço.
Os defensores do BIP respondem que soberania sem disposição para pagar preço é teatro. Se todos recuam quando existe risco, usuários não mandam porra nenhuma.
Esse é o melhor argumento deles. Eu o levo a sério.
Mas a coragem cobrada aqui usa o patrimônio de pessoas comuns para compensar uma coalizão que ainda não foi construída. Em 14 de julho, somente 3 dos primeiros 394 blocos do período exibiam apoio ao BIP-110: 0,76%, contra os 55% necessários para uma ativação antecipada coordenada.
Quantidade de computadores domésticos também não resolve sozinha. Mil pessoas podem instalar um programa e, diante da divisão, vender a moeda nova para preservar a antiga. O que decide uma guerra monetária é a disposição real de receber, pagar salários, precificar produtos e manter patrimônio naquele lado.
Essa disposição não aparece hoje em escala suficiente.
O BIP-110 também não elimina o armazenamento de dados
O próprio texto da proposta admite isso.
Quem quiser gravar um arquivo ainda poderá quebrá-lo em pedaços menores ou disfarçá-lo dentro de estruturas que parecem financeiras. O BIP torna alguns caminhos mais caros e inconvenientes, mas não transforma o Bitcoin numa rede incapaz de carregar informação não monetária.
Ao mesmo tempo, algumas restrições podem atingir usos legítimos raros: cofres, carteiras com regras de herança, transações preparadas com antecedência e ferramentas que montam condições de gasto complexas.
Talvez esses riscos sejam corrigíveis. O problema é a assimetria: estamos discutindo arriscar uma divisão da blockchain e introduzir novas possibilidades de erro sem eliminar aquilo que justificaria a guerra.
Quando uma divisão seria responsável
Eu não sou contrário a toda futura divisão. Pode chegar um momento em que permanecer na blockchain dominante seja aceitar a domesticação definitiva do Bitcoin.
Antes de apertar esse botão, eu exigiria cinco condições:
- A ameaça precisa ser concreta e verificável, prejudicando autocustódia, validação independente ou resistência à censura.
- A alternativa precisa estar pronta, auditada e mantida por várias pessoas, sem depender da virtude permanente de Luke.
- O benefício precisa justificar o risco e resolver algo substancial.
- O apoio econômico precisa existir publicamente antes da batalha, incluindo usuários, empresas, carteiras, corretoras e mineradores.
- A transição precisa estar planejada, com proteção contra erros, suporte das carteiras e clareza sobre o tratamento das moedas dos dois lados.
O BIP-110 falha principalmente nos três pontos centrais: alternativa madura, benefício proporcional e apoio econômico.
Minha conclusão
Eu queria terminar esta investigação defendendo o BIP-110.
Não consigo.
O Core precisa perder seu monopólio prático. A panelinha, seu financiamento e sua cultura woke representam uma ameaça real. A resposta correta é construir uma alternativa superior: vários mantenedores, financiamento distribuído, testes independentes, integração com carteiras e empresas, filtros compreensíveis e uma coalizão capaz de vencer antes de ameaçar dividir o Bitcoin.
Isso será uma guerra travada em muitas batalhas.
O momento de uma divisão pode chegar. Nas condições atuais, usar o BIP-110 para pedir que os plebeus coloquem o patrimônio da família atrás de uma blockchain minoritária é precipitado e irresponsável.
Eu concordo com a causa. Reconheço a coragem. Rejeito a estratégia.
Preparei um dossiê completo com aproximadamente 15 mil palavras, cronologia, explicações para leigos, análise do financiamento, riscos técnicos e todas as referências. Ele foi escrito para quem tentou entender essa treta, encontrou um monte de programador falando em código e saiu mais confuso do que entrou.
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