IMPORTANTE: Este material tem caráter exclusivamente educacional e informativo.
O conteúdo deste artigo não constitui recomendação de investimento, consultoria financeira ou orientação personalizada para decisões de investimento. A BetterMoney não é uma instituição financeira nem possui registro na CVM como analista de valores mobiliários.
Antes de tomar qualquer decisão: consulte um profissional devidamente habilitado. Considere seu perfil de risco, objetivos financeiros e situação patrimonial. Cenários apresentados são hipotéticos e não garantem resultados futuros.
A Entrevista Que Mudou Minha Semana
Na semana passada, a confiança do consumidor americano despencou para níveis que não víamos desde 2008. Ao mesmo tempo, o S&P 500 está perto de máxima histórica. A última vez que essa divergência apareceu foi em 2007.
Eu já estava inquieto com isso quando assisti a uma entrevista do Luke Gromen no Wealthion. Gromen é fundador da FFTT LLC, uma research house macro que atende fundos institucionais e family offices há 30 anos. É uma das vozes que eu mais respeito no cenário macro global.
Saí da entrevista com três insights que mudaram como eu penso sobre os próximos 12 a 24 meses. Vou compartilhar os três com você, junto com o que eu acho que ele acerta, onde eu discordo, e o que isso significa na prática para quem tem patrimônio no Brasil.
Insight 1: A IA Não Precisa Tirar Todos os Empregos. A Alavancagem Faz o Resto.
O medo popular sobre IA está errado. As pessoas temem que ela substitua todo mundo. Gromen aponta algo mais sutil e mais perigoso.
O argumento dele é simples: 52% da arrecadação federal americana vem de impostos sobre emprego. A maioria desses empregos é de escritório, porque os empregos de manufatura já foram para a China há 25 anos. A IA não precisa tirar todos esses empregos. Basta tirar alguns. A alavancagem do sistema financeiro multiplica o efeito.
Gromen compara com 2008. O percentual de hipotecas subprime que deu default foi relativamente pequeno. Mas a alavancagem sobre essas hipotecas quase derrubou o sistema financeiro global. A IA é o subprime desta vez. A alavancagem é o sistema inteiro.
O desemprego não precisa ir de 4% para 20%. Basta ir de 4% para 6%. A maioria dos trabalhadores de escritório americanos tem hipoteca, financiamento de carro, dívida estudantil. Cada demissão vira inadimplência. O banco que emprestou está alavancado. Cascata.
O Que Eu Adiciono
Gromen foca nos EUA, mas o raciocínio se aplica em qualquer economia alavancada. E o Brasil tem uma camada adicional que ele não aborda: a dependência de commodities.
Se a IA causa recessão nos EUA e na Europa (os maiores consumidores globais), a demanda por commodities cai. O real desvaloriza. O governo brasileiro, que já opera em déficit, perde receita. A espiral é a mesma, com o agravante de que o Brasil não tem a opção de imprimir a moeda de reserva global.
Para o empresário brasileiro com patrimônio relevante, isso significa que ficar 100% exposto ao Brasil (reais, imóveis, renda fixa local) é uma concentração de risco absurda. Não porque o Brasil vá quebrar amanhã, mas porque quando a onda chegar lá fora, chega aqui amplificada.
Insight 2: Brasileiros Reconhecem o Padrão. Americanos Não.
Gromen mostra o mesmo gráfico do Japão para investidores do mundo inteiro. A reação muda completamente dependendo de onde a pessoa vem.
O gráfico é o seguinte: os títulos japoneses de 10 anos estão ficando mais competitivos em relação aos Treasuries americanos. O spread está comprimindo. Historicamente, isso fortalece o yen. Mas desde setembro de 2025, o yen está enfraquecendo apesar do spread comprimir.
Essa é, pra mim, a parte mais reveladora da entrevista. Não pelo dado em si, mas pelo que ele expõe: americanos nunca passaram por uma crise soberana. Não têm a memória muscular. Brasileiros, argentinos, turcos, sim. A gente reconhece a doença porque já esteve internado.
O Que Eu Adiciono
Se o Japão, com a terceira maior economia do mundo e 200% de dívida sobre o PIB, está mostrando sinais de pré-espiral, a implicação é global. O Japão tem entre $4 e $6 trilhões em ativos no exterior. Se o BOJ for forçado a imprimir (yield curve control), essa liquidez inunda o sistema global.
Pelo framework de liquidez do Michael Howell, que eu uso para timing de mercado, isso é relevante. Quando o Japão injeta liquidez, o efeito chega nos ativos de risco com um lead time de semanas a meses. Isso pode ser o catalisador que falta para a próxima perna de alta em ativos reais.
Mas o caminho até lá vai ser violento. É tipo o Plano Collor: a solução do governo resolve o problema dele, não o seu. Quem estava 100% dentro do sistema bancário brasileiro em março de 1990 perdeu quase tudo da noite para o dia. A mesma lógica aplica aqui. A diferença é que hoje existem opções que não existiam em 1990.
Insight 3: Fevereiro 2026 É o Novo Julho 2007
Em julho de 2007, dois fundos do Bear Stearns foram de $3 bilhões a zero. Wall Street levou um susto. O público geral nem registrou. A crise só explodiu 14 meses depois.
Gromen acredita que estamos nesse exato ponto. Os profissionais já estão vendo os sinais. O público ainda não. O dado da confiança do consumidor é um deles. O comportamento do mercado de títulos japonês é outro. Os bancos demitindo silenciosamente por causa da IA, recusando explicar o motivo, é outro.
Um grande banco americano cancelou o programa de trainees inteiro e demitiu os que tinham 1 ano de contrato. Quando perguntaram o motivo, ficaram evasivos. Se disserem "IA", o moral interno implode. A Amazon proibiu internamente que funcionários usem os termos "robótica" ou "IA" ao explicar cortes de pessoal.
A diferença crucial em relação a 2007: naquela época o governo tinha espaço fiscal para responder. Hoje, os EUA gastam $7 trilhões por ano e arrecadam $5,2 trilhões. De cada dólar arrecadado, 70% vai para aposentadoria e saúde, 30% para juros, 20% para defesa. Já são 120% da receita. Não tem gordura para cortar.
O Que Eu Adiciono
Concordo com a direção, mas tenho uma ressalva sobre o timing. Em 2007, o sistema levou 14 meses entre os primeiros sinais e o colapso do Lehman Brothers. Dessa vez pode ser mais rápido (a IA acelera tudo, inclusive crises) ou mais lento (governos aprenderam a intervir mais cedo, mesmo que a intervenção só empurre o problema).
Gromen espera o que ele chama de "whoosh down", uma queda abrupta. Já tivemos um trailer: no Liberation Day de abril de 2025, ações, dólar e títulos caíram ao mesmo tempo. Comportamento de mercado emergente. O índice MOVE de volatilidade do Treasury bateu ~187, comparável ao crash de 1987. Trump capitulou em 7 dias porque o mercado de títulos quebrou.
Eu não sei quando o "whoosh" vem. Ninguém sabe. Mas sei qual é a resposta quando ele chegar: imprimir. Porque governos não quebram nominalmente. Eles pagam cada centavo. Só que em moeda que vale cada vez menos.
Quando foi a última vez que um governo escolheu voluntariamente a recessão brutal em vez de imprimir? A resposta é: praticamente nunca.
Onde Eu Discordo do Gromen
Gromen propõe o que ele chama de "portfolio Jacob Fugger": 25% ouro, 25% cash, 25% ações com dividendo, 25% imóveis produtivos. E tem mais de 50% do patrimônio pessoal em cash e ouro. Tem um pouco de Bitcoin, mas admite que está tentando fazer timing para comprar mais barato no whoosh.
Aqui é onde eu saio do ônibus dele.
Primeiro: a alocação 4x25% é boa como ponto de partida para quem nunca pensou em proteção patrimonial. Mas ela ignora a dimensão jurisdicional. Ter 25% em ouro guardado num cofre no país onde você mora é uma coisa. Ter 25% em ouro custodiado em Singapura, fora do alcance do governo local, é outra completamente diferente.
Segundo: tentar fazer timing com Bitcoin é um erro que eu vejo repetidamente em investidores macro tradicionais. Eles entendem a tese, mas ficam tentando comprar "mais barato" e acabam comprando mais caro ou não comprando nunca. O próprio Gromen reconhece que está sendo "too cute" com isso.
Terceiro, e mais importante: Bitcoin em autocustódia multisig é o ativo que resolve o problema que o Gromen está descrevendo melhor do que qualquer outro. Ele fala de feriados bancários, de governos confiscando patrimônio, do amigo da ex-URSS cuja família perdeu tudo quando os bancos fecharam. Bitcoin em autocustódia não precisa de cofre. Não precisa de banco. Não precisa de jurisdição nenhuma. É o ativo que o Jacob Fugger teria se existisse na época dele.
O Que Fazer Com Essa Informação
Eu poderia ter assistido essa entrevista e seguido com a minha semana. Mais um analista macro dizendo que o sistema vai quebrar. Todo mundo diz isso.
O que me fez parar foi a precisão da mecânica. Gromen não diz "vai dar ruim". Ele mostra exatamente como vai dar ruim: a IA tira empregos de escritório, a receita fiscal cai, o déficit piora, o governo não consegue cortar, a dívida espirala, o banco central é forçado a imprimir. Cada passo é verificável. E cada passo já está acontecendo.
Se esse cenário é provável, e eu acho que é, três coisas importam para quem tem patrimônio no Brasil:
- Diversificação jurisdicional. Patrimônio concentrado num único país é uma aposta que esse país específico vai fazer a coisa certa. O histórico não é animador.
- Ativos fora do sistema financeiro. Ouro físico e Bitcoin em autocustódia não dependem de nenhum banco, corretora ou governo continuar funcionando normalmente.
- Velocidade. Se Gromen estiver certo sobre o paralelo com 2007, temos meses, não anos. E se estiver errado sobre o timing, os dois pontos acima continuam sendo prudência básica.
O momento certo de se preparar já passou. O segundo melhor momento é agora.
Quer montar uma estrutura de proteção real?
Jurisdicional, tributária, com ativos fora do alcance de qualquer governo.
AGENDAR CONSULTAFonte: Este artigo foi baseado na entrevista de Luke Gromen no podcast Wealthion, publicada em março de 2026. Gromen é fundador da FFTT LLC, research house macro que atende fundos institucionais e family offices há 30 anos. Assista a entrevista completa aqui.